Apple: após alta de mais de 24% em 2026, balanço pode impactar rali?
A Apple se consolidou como a grande estrela do setor de tecnologia em 2026, mas o balanço do terceiro trimestre fiscal — divulgado após o fechamento do mercado desta quinta-feira — chega em um momento que pode definir se o rali tem pernas para continuar.
O rali que surpreendeu Wall Street
As ações da Apple acumulam alta de 24% em 2026, o melhor desempenho entre as gigantes conhecidas como Magnificent Seven. Somente em julho, os papéis sobem 17%, caminhando para o melhor mês em quatro anos. A empresa ultrapassou novamente a marca de US$ 5 trilhões em valor de mercado, juntando-se à Nvidia como as únicas companhias a atingir esse patamar.
O desempenho se destaca ainda mais quando comparado ao restante do setor. O índice Nasdaq 100 acumula queda de 10% em julho, a caminho do pior mês desde setembro de 2022. A divergência entre a Apple e o índice neste mês é a maior em mais de 20 anos.
O efeito porto seguro
Grande parte dessa valorização decorre do papel da Apple como porto seguro em meio à aversão de Wall Street aos gastos com inteligência artificial. Enquanto investidores se mostram cada vez mais céticos em relação às hyperscalers — empresas que constroem enormes centros de dados — e fabricantes de chips, a Apple ficou praticamente à margem da corrida armamentista da IA.
Há um ano, essa característica era motivo de crítica, e as ações da empresa tiveram desempenho inferior em 2025. Agora, porém, tornou-se uma inesperada fonte de força. "Todo mundo está falando da operação Apple, que muitos chamam de aposta anti-capex em IA", disse Gerald Sparrow, diretor de investimentos do Sparrow Growth Fund.
Essa dinâmica ficou evidente na última quarta-feira: enquanto o índice de semicondutores SOX tombou 5,3% e o Nasdaq recuou 2,1%, a Apple caiu menos de 1%.
O que esperar do balanço
As expectativas para o terceiro trimestre fiscal (encerrado em 30 de junho) indicam crescimento de 18% no lucro líquido e de 16% na receita. No entanto, as projeções sugerem desaceleração para um dígito nos próximos trimestres.
O grande ponto de atenção são as margens. A margem operacional da empresa vem diminuindo e pode entrar em território negativo até o final de 2026. Um dos principais fatores de pressão são os custos de memória: a corrida por infraestrutura de IA elevou a demanda por componentes como chips DRAM, cujos preços acumulam alta superior a 840% desde agosto do ano passado. Como a memória representa entre 10% e 20% do custo de fabricação de um smartphone, e a Apple manteve os preços dos iPhones inalterados, a rentabilidade fica sob pressão.
Valuation preocupa
O rali recente deixou a ação mais cara. Os papéis são negociados a cerca de 35 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses — o maior múltiplo desde janeiro de 2008, bem acima da média histórica e com prêmio significativo em relação ao Nasdaq 100.
"Tudo precisaria dar absolutamente certo para a Apple sustentar essa avaliação, e qualquer tropeço na teleconferência de resultados poderia derrubar a ação", afirmou Peter Andersen, diretor de investimentos da Andersen Capital Management.
Há também um padrão histórico que acende alertas: segundo o analista William Power, da Baird, toda vez que a Apple alcançou um novo marco de US$ 1 trilhão em valor de mercado, suas ações tiveram desempenho inferior ao do S&P 500 nos seis e doze meses seguintes.
O risco da rotação
O maior risco para a ação pode não estar nos números da companhia, mas na continuidade da rotação dos investidores. Se o sentimento em relação ao setor de tecnologia voltar a melhorar e as empresas expostas à IA recuperarem o favoritismo, a Apple poderá perder parte do apelo que impulsionou sua valorização.
"A Apple se beneficiou muito dessa rotação dentro do setor de tecnologia, e é razoável pensar que, se o pêndulo voltar para o lado da IA, ela poderá ficar bastante vulnerável", disse Dan Morgan, gestor sênior da Synovus Trust. "A menos que os resultados superem claramente as expectativas, o papel pode sofrer uma correção significativa."
Este é o último balanço sob o comando de Tim Cook antes do aguardado lançamento do iPhone dobrável, previsto para setembro — um fator que adiciona camada extra de expectativa ao resultado de hoje.